Boa estrela - era isso o que a mãe de Everton dizia que ele tinha. Talvez ela estivesse coberta de razão. Porque só mesmo um cara com uma baita estrela pra ter dado a sorte que ele teve. Cria de um dos bairros mais violentos de Sampa, desde cedo, era notório que o caminho do negrinho franzino que sempre levava a pior nas peladas de fim de tarde, seria totalmente diferente da maioria dos seus amigos. E se não foi através do futebol, sonho de dez entre dez moleques da periferia, foi através, adivinhe do quê? Da música - e nem poderia ser diferente! Não sendo ele filho de quem era. Seu Jair era uma daquelas figuras que todo mundo conhece, um daqueles tipos bonachões que todos têm na família. Alto, robusto, mulatão de imensos olhos verdes, a dentadura muito branca sempre escancarada... a simpatia em pessoa! Não era à toa que dona Sônia tinha ciúme mortal do marido. Mas ele jurava de pés juntos que, no mundo inteiro, só uma mulher existia para ele, e, era com ela que tinha casado. Ela fingia que acreditava, né, mas no fundo, no fundo, continuava de orelha em pé. E ela lá podia dar mole? O homem era um boêmio, um incorrigível, a sedução em pessoa. Poeta nas horas vagas, sempre vivia por aí, nos bares, pedaço de papel na mão, rascunhando alguma poesia, tentando bolar alguma melodia pruma futura canção. Sim, era um artista. Não tivera sorte, fato. Talvez fosse culpa da estrela dele - ah, sempre ela! Mas também não se queixava, afinal, ali, no bairro, ele era um astro. Isso ficou evidente depois que apareceu na TV, por duas vezes - uma no Show de Calouros, do Sílvio Santos, e outra, no Cassino do Chacrinha. E olha, essas aparições renderam, hein... Se hoje, ele fosse apresentado a você que lê essas linhas, certamente o papo começaria com algo do tipo “Sabia que eu já estive na televisão?”, tomando conta de boa parte da conversa. Aquele tipo de coisa que, embora tenha acontecido apenas duas, duas vezes, virou assunto pruma vida inteira.
Mas voltemos ao Everton. Dos sete filhos do casal, fora justamente ele, o herdeiro dos dotes artísticos do pai. Não tinha jeito, um era o outro; talvez, não cuspido e escarrado já que, fisicamente, o menino saíra todo à mãe. Não tinha a pele amulatada nem os olhos verdes do genitor; era um daqueles negros retintos do tipo que, hoje, já não se vê mais. Mas o temperamento, a queda pela poesia e pela música, o gosto pela vida boêmia, ah, tudo isso era gene do seu Jair. E desde bem moleque, era o “chaveiro” do velho, a companhia nos bares e rodas de samba da vida. É, roda de samba sim, senhor, já que, há muito, Vinicius foi contrariado. Daí pra começar a meter bedelho nos versos do pai, foi um pulo. E qual não foi a emoção do velho quando, pela primeira vez, viu o rebento entoar uma composição sua. Talvez tenha sido o dia mais feliz da sua vida, mais do que quando fora no Chacrinha ou no Sílvio Santos.
O tempo passou, Everton cresceu e encasquetou que queria ser artista. Só que o buraco era mais embaixo e, por exigência da mãe, resolveu insistir nos estudos. Já estava no terceiro período de Administração, mas achava que aquilo tudo era desperdício. Pegava o diploma, entregava à coroa e ia continuar por aí, soltando sua voz. Os finais de semana já eram dedicados ao showzinhos que dava com o grupo de pagode que montou com uns amigos de infância. Eu que já estive em muitas dessas apresentações, posso afirmar: o cara tinha talento. E não era pouco, pelo contrário. Mas sabe como é: tudo pra pobre e mais difícil. Evidente que, com ele, não era diferente.
Mas a sorte parecia mudar e lá vinha a estrela do nosso herói brilhando outra vez. Estava ele, numa dessas noitadas, conversando com duas belas morenas, depois do “show”, quando foi abordado por um cara que se identificou como produtor de TV. Reality Show. Explicou a proposta. Everton ficaria confiando por dois meses. Ele e mais um grupo de doze pessoas. Tinha de tudo: um ex-padre, uma halterofilista, um casal de lésbicas... Ele era o representante da periferia. Quando ouviu isso, um “merda” lhe subiu à garganta e, por pouco, não esmurrou o dito cujo. Resolveu virar as costas e deixar o sujeitinho falando sozinho. Em vão. O “produtor” não se fez de rogado e continuou no pé de Everton. Venceu pelo cansaço.
Mas voltemos ao Everton. Dos sete filhos do casal, fora justamente ele, o herdeiro dos dotes artísticos do pai. Não tinha jeito, um era o outro; talvez, não cuspido e escarrado já que, fisicamente, o menino saíra todo à mãe. Não tinha a pele amulatada nem os olhos verdes do genitor; era um daqueles negros retintos do tipo que, hoje, já não se vê mais. Mas o temperamento, a queda pela poesia e pela música, o gosto pela vida boêmia, ah, tudo isso era gene do seu Jair. E desde bem moleque, era o “chaveiro” do velho, a companhia nos bares e rodas de samba da vida. É, roda de samba sim, senhor, já que, há muito, Vinicius foi contrariado. Daí pra começar a meter bedelho nos versos do pai, foi um pulo. E qual não foi a emoção do velho quando, pela primeira vez, viu o rebento entoar uma composição sua. Talvez tenha sido o dia mais feliz da sua vida, mais do que quando fora no Chacrinha ou no Sílvio Santos.
O tempo passou, Everton cresceu e encasquetou que queria ser artista. Só que o buraco era mais embaixo e, por exigência da mãe, resolveu insistir nos estudos. Já estava no terceiro período de Administração, mas achava que aquilo tudo era desperdício. Pegava o diploma, entregava à coroa e ia continuar por aí, soltando sua voz. Os finais de semana já eram dedicados ao showzinhos que dava com o grupo de pagode que montou com uns amigos de infância. Eu que já estive em muitas dessas apresentações, posso afirmar: o cara tinha talento. E não era pouco, pelo contrário. Mas sabe como é: tudo pra pobre e mais difícil. Evidente que, com ele, não era diferente.
Mas a sorte parecia mudar e lá vinha a estrela do nosso herói brilhando outra vez. Estava ele, numa dessas noitadas, conversando com duas belas morenas, depois do “show”, quando foi abordado por um cara que se identificou como produtor de TV. Reality Show. Explicou a proposta. Everton ficaria confiando por dois meses. Ele e mais um grupo de doze pessoas. Tinha de tudo: um ex-padre, uma halterofilista, um casal de lésbicas... Ele era o representante da periferia. Quando ouviu isso, um “merda” lhe subiu à garganta e, por pouco, não esmurrou o dito cujo. Resolveu virar as costas e deixar o sujeitinho falando sozinho. Em vão. O “produtor” não se fez de rogado e continuou no pé de Everton. Venceu pelo cansaço.
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Tá, ele não levou o reality, mas desconfiava que, entre todos os participantes, foi o que se deu melhor. Aos 23 anos já tinha o futuro garantido. Saiu do programa e foi logo posando pruma dessas revistas de gay, sabe, com o curioso slogan “Veja tudo o que o negão tem pra mostrar”. Sucesso de vendas absoluto entre o público gls, Everton usou o cachê pra tirar os pais da comunidade. Isso sem falar da puta projeção pro seu grupo, o “Só Delícia”. Em tempo recorde, o rosto do menino que, não fazia muito, se dava mal na várzea, ficou conhecido em território nacional. E a mulherada que antes não via grande coisa ali, agora se rasgava por ele. Mas o coração dele tinha dona. Carolaine era o seu nome.
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Tinha 15 quando o conheceu. Everton já tinha manjado a morena de olhão azul, na fila do gargarejo, cantando, de cor e salteado, as doze faixas do novo cd. E não tirou os olhos dela, durante todo o show. Carol - como preferia ser chamada - percebeu e não se fez de rogada. Cantava cada vez mais alto, fechando os olhinhos, esbanjando charme como só as meninas de 15 sabem fazer.
Quando acabou o show, ia com umas amigas pro ponto de ônibus, quando sentiu uma mão pesada no braço. Virou-se. Era um “armário”, de terno e óculos e escuros. De início, ficou assustada, mas quando o segurança abriu a boca, entendeu tudo:
- O grupo gostaria de ter a honra de receber a senhorita no camarim.
Deu um sorriso sacana. O grupo, né? Tá bom. O grupo...
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A noite ainda não tinha terminado e os dois já estavam namorando. Namoro à moda antiga, diga-se de passagem. Daqueles que se pede permissão ao pai e tudo mais. Também, tinha de ser assim. Seu Nogueira, pai da moça, era terceiro sargento reformado da PM. Naquela casa, tudo seguia o figurino. À risca. Mas Everton era carismático. Conquistou a sogra, de prima. O pai, demorou um pouco mais. Três domingos, pra ser exato. Mas depois que sentaram-se um dia, lado a lado, no sofá da sala, e o assunto passou a ser o desempenho do Coringão no Brasileirão, a coisa mudou de figura. E Everton passou a ser não apenas namorado da Carolaine, mas também do velho e bom seu Nogueira...
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Só estavam esperando o fim da faculdade da moça - Direito - pra trocarem alianças. O empresário achava precipitado. Everton ainda tava na flor da idade e era preciso não desperdiçar o carisma que ele tinha junto às garotas. Mas ele não queria saber de carisma nenhum. Ele queria era passar o resto da vida ao lado da sua Carolzinha, ficar velhinho como os seus pais estavam ficando, um ao lado do outro.
Foi quando aconteceu. Ela ligou, no meio de uma turnê, querendo saber quando ele voltava. Dali a dois dias, foi a resposta. Ela tinha a voz trêmula, ele percebeu. Quis saber o que havia, ela respondeu dizendo que era algo que tinha de ser tratado pessoalmente. Foram os dois dias mais longos de sua vida. Imaginou mil coisas. Mas tinha certeza, certeza absoluta do que ela queria falar-lhe. Que sentia muito, que gostava muito dele, mas que não dava mais. Tudo tinha terminado.
Quando voltou pra Sampa, a primeira coisa que fez foi vê-la. Ela estava visivelmente tensa, abatida. Ele foi logo falando, dizendo o quanto a amava, que não podia viver sem ela. Ela sorriu, o sorriso mais doce do mundo, e o beijou. Falou que não era nada daquilo, que não queria deixá-lo. Agora, mais do que nunca. Porque carregava, na barriga, o filho deles.
Everton deu um pulo pra trás. Ficou alguns segundos parado, olhando pra namorada, tentando digerir a informação. Ainda não havia conseguido. Ela pegou-lhe as mãos e soltou um “o que houve, amor?”. Ele não falou nada, abaixou o olhar e assim ficou, algum tempo, pra depois dizer:
- Você vai tirar, não vai?
Nunca mais se falaram.
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A cabeça estava a mil. Se existia inferno, estava nele. Deus do céu, por que fora tão ridículo? Por que soltou tanta merda? Queria fazer algo, queria procurá-la e falar que podia contar com ele, pro que desse e viesse, porque simplesmente a amava. Mas não conseguia. Jurava que não.
Aquela noite, bebeu muito. O apartamento estava cheio. Dizem as más línguas que até orgia rolou. Só sabe que acordou, pela manhã, com duas moças na cama, jurando que aquela tinha sido a melhor noite da vida delas.
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Isso tudo foi parar no jornal, pra variar. E se, antes, Everton não tinha certeza se existia inferno, agora tava ali, com o capeta bafejando no seu cangote. Nem pintado a ouro, Carol e a família queriam vê-lo, pela frente. Tentou por diversas vezes. Queria gritar pro mundo que a amava, que queria tê-la ao lado, ela e o filho dos dois. Mas não conseguia. Não deixavam sequer se aproximar. Aquela manhã, no entanto, estava disposto a mudar o rumo dessa história. Saiu de casa resolvido. Pegou o carro e tomou o rumo da sua felicidade. Quase foi barrado na portaria, mas deu um safanão no porteiro, tirando o pobre da frente. Tocou a campainha. O pai abriu, falando que ali não era benvindo. Não se fez de rogado e forçou entrada. Furou o bloqueio do velho e foi direto até ela que, chorava copiosamente, abraçada na mãe. De joelhos, falou que a amava, a amava mais que tudo, mais que a própria vida, amor do tamanho do Universo. E que queria casar com ela e cuidar daquela criança. Nem em sua melhor composição, tinha tanto lirismo. E verdade.
Foi quando o seu Nogueira soltou o verbo:
- Não há filho nenhum, seu merda. Graças a Deus, aliás. Seria muita putaria ter um neto filho de um merda feito você.
Foi uma porrada na cabeça. Mas... como não havia filho? Em lágrimas, Carol explicou que fora alarme falso. Mas agora não fazia diferença. Porque, com filho ou sem filho, ela ainda o amava, e queria ficar com ele, custe o que custasse. Que se danasse o mundo. Era sua. E ele era dela.
Abraçaram-se e beijaram-se apaixonadamente. Ele a chamou pra ir embora, queria viver com ela, tê-la como mulher.
- Agora?! - ela indagou, os olhinhos brilhando.
Respondeu que sim. Agora ou nunca.
Ela pediu cinco minutos pra pegar suas coisas. E foi até o quarto. Pronto. O circo estava armado. O pai pegou o 38, a mãe ameaçou trancar a filha em casa. Com a arma na cabeça, Everton foi forçado a se retirar. Carol, transtornada, pedia que ele a esperasse. Não ficava ali mais um minuto. Nem morta.
Ele já ia saindo pela portaria, quando escutou o seu nome. Parou, levantou o olhar. Da janela, Carol, bolsa e jaqueta nas mãos, gritou, os cabelos negros ao vento, os olhos azuis mais azuis do que nunca:
- Amor... Me espera!
E jogou-se. Do décimo-terceiro andar.
Em dez segundos, a vida de Everton se transformou, de pagode em tango argentino. No fim das contas, ele saiu ganhando. Mudou o gênero, mas não perdeu as fãs, carregando, a partir de então, a alcunha de "Eterno Viuvinho".
Tinha ou não tinha uma boa estrela?


1 pitacos:
Não sei porque, mas quando vi que ele conheceu um amor, já percebi que essa história não ia terminar bem rsrsrs Alguém ia se dar mal.
Conto enooooooorme, mas delicioso de ler.
Abçs brother! vlw pelo comentário!
Danilo Moreira
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