quarta-feira, 11 de maio de 2011

:)

"Estar perto não é físico"


Ele tinha 16 anos e era fã do Radiohead, dos Mutantes e de Vitor Ramil.  Com uma inteligência acima da média, falava fluentemente inglês e francês - língua em que foi alfabetizado, durante o período em que a família viveu em Paris, por conta do doutorado da mãe.  Dono de um imenso talento, Vinícius Gageiro Marques - ou Yoñlu, como era conhecido no mundo virtual - compunha músicas cujas letras revelavam muito do que ele sentia.

Em 26 de julho de 2006, às 11 horas da manhã, Vinícius marcou o grande encontro da sua vida - com a morte.  Após despachar os pais, com a história de um churrasco que queria oferecer aos amigos, trancou-se no banheiro do apartamento da família, com duas churrasqueiras acesas, com o intuito de suicidar-se, inalando monóxido de carbono - método aprendido em fóruns de suicídio, na internet.  Segundo Mário Corso, psicanalista que atendia Vinícius, existem centros de valorização da morte na Grande Rede.  Para ele, Yoñlu foi vítima de um crime praticado nas "ruas negras da Internet".  Realmente, a morte foi planejada e documentada em tempo real: 

“Estou fazendo esse método CO (suicídio por inalação de monóxido de carbono) neste momento e tenho duas grelhas queimando no banheiro. Aqui está a foto. Alguém pode me dizer se há carvão suficiente e quando eu posso entrar no banheiro e me deitar? Por favor, por favor, me ajudem! Eu não tenho muito tempo” (...) “Ah, meu Deus. Eu não consigo suportar o calor, está tremendamente quente naquele banheiro. O que eu devo vestir para se tornar mais suportável? Eu tomei uma ducha antes, mas não adiantou nada. O que eu posso fazer? E o que eu devo fazer para desmaiar, por Deus?"

Vinícius deixou uma espécie de carta-testamento onde explicava aos pais a razão do seu ato e deixava aquele que, talvez, seja o seu grande legado:  um cd com algumas músicas de sua autoria e que, algum tempo depois de sua morte, foi lançado.  Era inegável o enorme talento que o menino tinha, tanto que, algumas de suas canções já faziam sucesso fora do país, como ficara sabendo, através de amigos virtuais, pouco tempo antes do suicídio.




A história de Yoñlu me veio à mente hoje, após conferir "Aos Famosos E Os Duendes da Morte", filme de estreia do cineasta paulista Esmir Filho, diretor do famoso "Tapa Na Pantera".  O filme conta a história do "Menino Sem Nome", um adolescente, da mesma idade de Vinícius, morador de uma cidadezinha  no "cu do mundo", cheio de questões e todo um universo borbulhando dentro de si.  A maior parte do tempo, ele passa online, postando no seu blog, ouvindo Bob Dylan - não é à toa que seu handle é "Mr. Tambourine Man" - e conversando com amigos virtuais.  Em contrapartida, o convívio com a mãe não é dos melhores - algo cada vez mais vísivel numa geração que passa mais tempo conectado do que convivendo com a própria família, por exemplo.  Tá, mas o que o Yoñlu tem a ver com o filme? Tudo - ou nada.  Nos dois casos, nos deparamos com "personagens" nascidos a partir de 1990 e que não conheceram uma vida sem internet, celulares e afins.  Filhos de uma geração que teve que  aprender a conviver com essas tecnologias e que, muitas vezes,  julga que os filhos estão seguros, trancados nos quartos, diante de suas máquinas.  Ledo engano.  Trancandos nos quartos, mas passeando pelo mundo.

Quanto ao filme, fica o aviso:  para muitos, "Os Famosos E Os Duendes da Morte" não é um filme fácil.  O ritmo é lento, os enquadramentos são longos e muitas cenas parecem desnecessárias.  No entanto, o roteiro é de um lirismo sem tamanho, a fotografia é impecável e a trilha sonora, um luxo só.  Vale cada minuto de sua atenção e emoção, porque esse é um daqueles com o qual é fácil se identificar - seja  você da geração Y ou não.  

*_*

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me...

4 pitacos:

Caio Coletti disse...

Tenho esse filme aqui em casa há algum tempo já, mas ainda não o assisti. Lendo seu texto, fiquei com mais vontade de fazê-lo. Ou não, porque tenho minhas dúvidas se não vou me identificar com tudo isso um pouco demais. De um jeito ou de outro, é tão raro ver filmes brasileiros pensados desse jeito, para a minha geração, e com esse ritmo que você descreveu aí, praticamente europeu, mas bastante moderno. Realmente é o tipo de produção que vale a pena.

Abraços, Marcelo!

esdras b disse...

Pôxa Marcelo quanto tempo! Que bom q vc voltou, ou melhor, voltamos. Também andei sumido, sem postar nos últimos meses, mas estava sempre de olho em meus blogs favoritos e fiquei preocupado com seu desaparecimento do blog, mas ainda bem q só tava dando um tempo certo?
Quanto ao filme quero muito ver, esses filmes lúgubres sempre me interessam muito.

Abços pra ti e até logo!!!

Sandra Botelho disse...

Vim conhecer, volto pra ler, com certeza volto.
beijos achocolatados

Danilo Moreira disse...

Cara, admito, não sou tão ligado em cinema, mas achei bastante interessante essa história.

Me considero de uma geração pré-Y rsrsrs. Posso dizer que eu cheguei a ter infância sem computadores e celulares, mas, hoje sou antenado a essas tecnologias tal qual é essa geração pós 1990.

Infelizmente, vivemos numa sociedade que se acostumou ao padrão hollywoodiano de cinema, com cortes e cenas rápidas, com histórias cheias de movimento e ação, coisa diferente do padrão europeu (e que o Brasil, de certa forma, segue), que tem um ritmo bem menor e que é mais reflexivo.

Abçs!!

Danilo Moreira
http://blogpontotres.blogspot.com/
Sob a lua

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