terça-feira, 27 de abril de 2010

Maldita Geni


"Joga pedra na Geni
Joga pedra na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!"


Composta por Chico Buarque de Holanda para a Ópera do Malandro - musical que estreou, com enorme sucesso, nos palcos cariocas em 1978 -, Geni e o Zepelin narra a história de uma prostituta que se transforma, da noite para o dia, na salvação de toda uma cidade: 

"Um dia surgiu, brilhante
Entre as nuvens, flutuante
Um enorme zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim
A cidade apavorada
Se quedou paralisada
Pronta pra virar geléia
Mas do zepelim gigante
Desceu o seu comandante
Dizendo - Mudei de idéia
Quando vi nesta cidade
Tanto horror e iniqüidade
  Resolvi tudo explodir
  Mas posso evitar o drama
  Se aquela formosa dama
  Esta noite me servir."


Resignada, Geni se entregou ao seu destino e deitou-se com o "comandante" que se fartou com suas carnes.  No dia seguinte, porém, o cara deu no pé.  E a pobrezinha voltou a ser o cocô do cavalo do bandido.  A cena de Geni encontrando o comandante é antológica e a música do Chico, magnífica.

Pros desavidos, vale o aviso:  Geni, na verdade, não é ela, e sim, ele.  Isso mesmo, Geni era um homem e se chamava Genival.  Nos palcos, ele foi encarnado por Emiliano Queiroz, na primeira versão.  Em 2004, quando assisti ao espetáculo, Sandro Cristopher foi minha Geni.

A canção me veio à cabeça, dia desses, quando vi na TV a notícia acerca de um artigo homofóbico publicado no jornal “O Parasita”, produzido por alunos de Farmácia da USP.  O texto, assinado por um tal de Joãozinho-Zé-Ruela, critica um rapaz que beijou outro rapaz, numa festa, no ano passado:

"Lançe-merdas e Brega será na Faixa - Ultimamente nossa gloriosa faculdade vem sendo palco de cenas totalmente inadmissíveis. Ano passado, tivemos o famoso episódio em que 2 viadinhos trocaram beijos em uma festa no porão de med. Como se já não bastasse, um deles trajava uma camiseta da Atlética. Porra, manchar o nome de uma instituição da nossa faculdade em teritório dos medicus não pode ser tolerado. Na última festa dos bixos, os mesmos viadinhos citados acima, aprontaram uma pior ainda. Os seres se trancaram em uma cabine do banheiro, enquanto se ouviam dizeres do tipo "Aí, tira a mão daí." Se as coisas continuarem assim, nossa faculdade vai virar uma ECA. Para retornar a ordem na nossa querida Farmácia, O Parasita lança um desafio, jogue merda em um viado, que você receberá, totalmente grátis, um convite de luxo para a Festa Brega 2010. Contamos com a colaboração de todos. Joãozinho Zé-Ruela", escreve "O Parasita".

Tudo isso me levou a pensar em algumas coisas.  Destaco duas:
1º) Tanto a música quando o fato ocorrido nos remete à maldita porção filhadaputa que cada um de nós traz, escondida, bem no fundo da alma e que, muitas vezes, teima em despertar e tomar conta da vida alheia, insistindo em criticar comos os outros vivem, com quem dormem, como ganham a vida e por aí vai;

2º) Mais do que nunca é preciso tomar cuidado com a maldita porção filhadaputa e pensar duas vezes no que se fala, comenta, fofoca, escreve, bloga porque o mundo mudou, meu bem - graças a Deus - e as pessoas conhecem seus direitos.  

A intolerância já foi responsável por muita merda por aí.  Nunca é demais lembrar  do Colonialismo, da escravidão e - por que não? - do Holocausto - notas tristes de nossa história, motivadas, acima de tudo, pela mania do povo de não aceitar o outro. Foi brincadeira? Ah, tá, mas  se não sabe brincar, não brinca. Jogar merda em viado não foi nem um pouco engraçado.

Oxalá que episódios como esse não se repitam... e deixemos os outros viverem em paz - sejam eles Genis, Joões, Marias ou Marcelos.

6 comentários:

Jaime Guimarães disse...

E foi a partir de "brincadeiras" assim que surgiram regimes totalitários e teorias que visavam comprovar cientificamente certas "supremacias" - a eugenia, por exemplo ( não é a dona Eugênia e nem a Geni).

Que não tenha simpatia por certos movimentos, e normal. Ninguém precisa aceitar tudo, mas tentar manipular opiniões e de uma forma terrivelmente preconceituosa e perigosa não dá para admitir, certo? É por isso que eu não estranho um Ronaldo e um Neymar expressarem claramente diante das câmeras de TV "não sou preto". Além da questão da (falta de) identidade, há a questão de negar ( sem trocadilhos, please!) a cor ou a preferência sexual para escapar destes movimentos de intolerância. Claro, pode-se não concordar e achar um absurdo as declarações dos jogadores, mas é preciso procurar fontes que possibilitem entender tais ideias.

"manchar o nome de uma instituição da nossa faculdade em teritório dos medicus (sic) não pode ser tolerado."

Se bem que é até difícil levar a sério...mas começa assim, com uma galhofa aqui e ali.

Abraço, Marceleza!

PS: Lá vai uma kenningar pra você se divertir:

Detentores outrora do saber
Atualmente desprezada pela manada,
Humilhada pelos abutres,
Resta aos bravos e raros çábios
Copular consigo mesmos!

Adivinha essa, Marceleza! Viva a Islândia, Skalagrimsson e Bjork! =D
E aí, que tal? uhauhauhauhauhauhauha!

Hanna Estevam disse...

Essa obra de do Chico Buarque, como diz meu filho de 3 anos é fantacular! rs. Quando estava no colegial, minha turma fez uma releitura. Ficamos meses estudando a peca. Foi muitooooo bom!!!

Mas esse seu post, me fez refletir sobre o meu ultimo post... rs Ahh vaiiii... rs Bjs

Caio Coletti disse...

Ouvi muito de MPB por causa do meu pai, e Chico Buarque era o que ele mais tocava. Hoje meio que me desprendi dessa influência, que pode fazer muita mentalidade fechada por aí, mas continuo reconhecendo o Chico como um dos compositores que mais se deram bem com a língua portuguesa. Não é fácil compor em português, muito mais difícil que inglês, a coisa sai de forma menos natural, é preciso muito desenvoltura para não cair em armadilha. O Chico evitava isso muito bem e ainda enchia o texto de metáforas inteligentes e oportunas para sua época.

Sobre o seu post no geral, acho que o que você falou sobre intolerância e "bisbilhotice" na vida dos outros é mesmo uma realidade. Ainda existe gente que não consegue aceitar ninguém que viva de uma forma diferente da sua própria. Em tempos de internet interligando o mundo inteiro, isso é absolutamente inaceitável, retrógrado e seriamente analógico. Ainda bem que o que o tempo deixa para trás tende a deixar de existir. Quanto antes, melhor.

Abraço! :D

Thiago Paulo disse...

Será que um dia isso vai mudar? as vezes parece que não, porque sempre aparece esse tipo de comentário.

Acho que tomo tem o direito de pensar algo, mas, falar - nesse caso escrever - já outra coisa.

Nota zero pra esse tipo de coisa.

Abraço!

Cinthya Rachel disse...

obrigada pela visita
adorei encontrar o Chico por aqui, rs

Danilo Moreira disse...

Ola Marcelo! Desculpe pela ausência!!

Acho engraçado que há um pessoal que justifica esse tipo de piadas como humor-negro, daí o resultado: piadas desrespeitosas, que brincam com a doença dos outros (como o caso da hebe), com a morte (como o caso do Michael Jackson), entre outros.

Infelizmente, meu amigo, acredito que mesmo que a sociedade tenha evoluido, a homofobia ainda é muito presente nos dias de hoje, talvez menos escancarada devido à lei, mas maquiada justamente por meio dessas brincadeiras de mau gosto.

Abçs!!!!

http://blogpontotres.blogspot.com/

(blog de jornalismo)
http://engulaisso.blogspot.com/

Postar um comentário

Deixe seu comentário, crítica ou opinião. A família agradece... E volte sempre!!!

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails Bornes relacionados com Miniaturas