segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

We Are Anonymous





Indústria Cultural é um termo cunhado por Theodor Wiesengrund-Adorno, um dos principais nomes da chamada Escola de Frankfurt.  O termo foi utilizado, pela primeira vez, no fim da década de 1940, na obra "Dialética do Iluminismo", escrito a quatro mãos com Max Horkheimer.  Os autores explicam que o termo vem substituir o que era até então conhecido como “Cultura de Massa”, que dá a idéia de algo que nasce, espontaneamente, do povo.  Ao contrário disso, a “Indústria Cultural”  encara os meios de  comunicação - rádio, cinema, TV, imprensa, etc. - não como arte, mas, sobretudo, negócios que exploram sistematicamente os bens culturais.  É através dela que a classe dominante dissemina sua ideologia, escamoteada como serviço e entretenimento, impondo à população normas, valores e conteúdos.

Tudo isso me veio à cabeça, essa semana, com alguns episódios.  O primeiro foi o caso do suposto “estupro” do BBB.  Estuprou, não estuprou, com consentimento, sem consentimento, foi justiça ou racismo - todas essas questões foram levantadas por fãs ardorosos e detratores do reality global. 

Depois veio a vez da Luiza - que está no Canadá (ou estava), não se pode esquecer.  Como é comum em tempos de informação à velocidade da luz, o bordão virou hit na internet, em poucas horas, poluindo a timeline de Deus e o mundo por alguns dias.

Foi então que entrou em cena ele, o paladino da justiça, o porta-voz daquilo que você sempre quis dizer mas faltou coragem, Carlos Nascimento, âncora de um telejornal que gracejou que “ou os problemas brasileiros já estão todos resolvidos ou nós já nos tornamos perfeitos idiotas. Porque não é possível que dois assuntos tão fúteis possam chamar a atenção de um país inteiro”.  E dá-lhe retuítadas e compartilhamentos das palavras do Nascimento.

Eu não retuitei nem compartilhei - e não me envergonho disso, porque horas depois presenciei aquele que talvez seja o grande momento da história da internet dos últimos anos e que provou, por a+b que não, não somos "perfeitos idiotas".  Não conformados com as determinações da SOPA e PIPA, projetos de lei que pretendem, acima de tudo, cercear  a liberdade de expressão, internautas do mundo inteiro, num ato quase que inédito, uniram-se, tendo como estopim o fechamento do site de compartilhamento de arquivos Megaupload. O resto da história nós já conhecemos. E viva o Anonymous, e tira site do FBI do ar, é The Pirate Bay expondo sua posição brilhantemente... Lindo. Emocionante. Como acho que nunca vi, em todo esse tempo navegando por aí.

Portanto, Nascimento, me desculpe, mas acho que perder tempo com o BBB não é futilidade.  Não, não defendo o programa e acho terrível perder tempo assistindo a atração. Mas penso que o episódio foi fundamental para revelar o nível da programação das nossas emissoras de TV.  Ou seja, o que a Indústria Cultural tem nos empurrado, goela abaixo.  E muito menos somos idiotas que não sabemos distinguir o que é bom ou ruim, o que presta ou não presta, o que é útil e o que é lixo.  Certamente, muitos ainda não têm esse discernimento.  Mas estamos aqui, radicalizando, se preciso.  Fazendo história.  Definitivamente.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Encontro Marcado


O post abaixo é dedicado ao amigo Danilo, autor e proprietário do blog Ponto Três, que me cobrou um texto novo, no nosso bate-papo, na tarde de Natal.  Taí, velhão, conforme prometido!


"Um deles, porém, chamou-lhe a atenção, não sabia o porquê:  “Macho que curte macho na encolha.  Vem sentir o que é bom.  Te levo ao céu e te faço ver Deus.  Gostou?  Aqui, toda quarta, às 14.” (...)"


Chegou correndo, esbaforido.  Havia mais de quinze minutos que a vontade de mijar era incontrolável.  Sério, por pouco não parou o carro numa esquina qualquer, procurou um cantão e pôs o pinto para fora.  A bexiga parecia que ia estourar, de tão cheia.  Por isso, assim que chegou no shopping, pulou a parte de verificar se tudo estava na mais perfeita ordem - freio de mão puxado, carro milimetricamente alinhado à vaga, todas as portas trancadas e janelas levantadas -, tarefa com a qual costumava perder preciosos minutos, e seguiu, imediatamente, rumo ao banheiro mais próximo a fim de descarregar toda a cerveja que tinha tomado com o Marcão, durante o almoço.  Tentou  o elevador, disposto a chegar mais rápido ao  destino.  Ledo engano. Nos dois elevadores, as filas eram quilométricas - ousava dizer literalmente - de tão grandes que estavam.  Não havia outra alternativa.  Foi pelas escadas.  Parecia um atleta; um destes maratonistas, tamanho o desespero que tomava conta do seu corpo, mais especificamente dos “países baixos” que, não demorava  muito, era bem capaz de dar sinais de vida de tão estimulados que estavam.

Quando finalmente chegou ao piso das lojas, sentiu um alívio momentâneo, que foi por água abaixo ao notar que estava perdido.  Não sabia qual direção seguir, qual corredor tomar.  Pensou em abordar alguém e perguntar “Por favor, onde ficam os banheiros?”, mas cadê que a vergonha deixou?  Decerto estava estampado na testa “Quero Mijar, Pelamor de Deus!”, por isso, decidiu provar a si mesmo que era maior que sua vontade, que quem mandava ali era a porra do seu cérebro e, por isso, respirou fundo e resolveu achar o seu “porto seguro” por conta própria. Placas, sempre havia algumas delas informando onde ficava isto ou aquilo.  Era só andar mais uns metros e - bingo! - estaria diante de uma lhe indicando o que tanto procurava.

E, enquanto tratava de caminhar, catando as plaquinhas salvadoras, pensou que da próxima vez que saísse para almoçar com um amigo, maneiraria na gelada e só arredaria pé do restaurante depois de dar conta de todo líquido ingerido.  Por sorte, no meio do caminho, havia aquele shopping, oásis no meio do deserto lhe convidando a saltar e verter toda a breja consumida.  Caso contrário, o pit stop seria no primeiro poste que topasse, no melhor estilo “cachorro” de ser.  Pensou nisso e riu, imaginando qual seria a reação do Marcão, quando contasse essa história.  Certamente seria algo do tipo “Mas, caralho, qualé o problema em colocar a porra desse pau pra fora?” ou  “Putaquipariu, virou moça, é? Cheia dos pudores...”. Definitivamente, esse era o Marco Aurélio.  Ou Marcão, como geral o conhecia.  Não esperaria algo diferente saindo daquela boca suja.  Talvez fosse até melhor não contar-lhe nada, porque, para ele, o fato nada tinha de extraordinário.  Meninos mijam na rua, desde que o mundo é mundo.  Estão lá no futebol e, de repente, param e descarregam, ali mesmo, onde estão, sem cerimônia, como se fazer esse tipo de coisa em lugar público fosse a mais corriqueira do mundo. E talvez fosse mesmo, pelo menos, no universo masculino.  Homens não têm pudores, nem diante das mulheres, imagine então entre si.  Mijam uns na frente dos outros, peidam sem cerimônia, expõem tudo aquilo que o resto da humanidade insiste em vergonhosamente esconder.  Nesse ponto, admitia, era diferente da maioria dos colegas de gênero.  Pensou até que, talvez, nesse aspecto, fosse bem pouco masculino.  Mas imediatamente tratou de afugentar esse pensamento porque associou, rapidamente, o fato de ser pouco menos masculino ao de ser pouco menos hétero - se isso fosse capaz.  Não, não era isso, não mesmo.  Era só mais educado - e ponto.  Era criação.  Coisa de família. Não conhecera o pai, convivera a vida toda com a mãe, as irmãs e a avó.  E é claro que as mulheres peidam e mijam, mas de uma forma um tanto mais cerimoniosa. Lembrou-se de uma vez, quando alguém surgiu com a palavra “mijar” numa conversa doméstica e a mãe, aborrecida, foi logo soltando:  “Eu não mijo, quem mija é  a vaca. Eu urino.”.  Pior foi quando, inconsciente, reproduziu o mesmo discurso, durante uma pelada no campinho do fim da rua, ainda moleque - “Pera, preciso fazer xixi!” - , sendo logo advertido por um coleguinha que disse que “Homem não faz xixi; homem mija, Ricardo!”.

O Marcão era um desses.  Conheceram-se ainda na adolescência, no colégio.  Com uns doze anos, já era o homenzarrão de hoje.  Moreno, parrudo, ombros largos e mãos enormes, sempre chamou a atenção da mulherada.  A primeira namorada foi uma menina de 17 anos, quatro, quatro anos mais velha - o que é muita coisa quando se tem 13 anos.  Ele jura até hoje que foi ela a responsável de mandar-lhe a virgindade para o espaço.  No fundo, no fundo, duvidava muito, mas para não perder o amigo, fingia que acreditava.  Não que fosse algo impossível, o Marcão transando com uma menina mais velha.  Muito pelo contrário.  Mas algo, no seu íntimo lhe dizia que a primeira vez não havia sido com ela.  Contudo, como já dissera, não queria perder-lhe  a amizade, e não queria mesmo, porque  o Marcão era, a despeito de todo aquele jeito grosseiro e estúpido, uma companhia maravilhosa, um amigo para todas as horas, daqueles que se pode contar para o que der e vier - e muitas provas teve disso, ao longo de mais de duas décadas de amizade.  Amizade, aliás, para muitos, bem pouco provável, visto que eram donos de temperamentos opostos. Mas como se diz por aí que os opostos se atraem, a diferença deu samba e, desde que se conheceram, nunca mais se desgrudaram.  Era uma dupla daquelas bem marcadas que ninguém consegue desassociar um do outro - O Gordo e o Magro, Batman e Robin, Pink e Cérebro, a corda e a caçamba -.  Chegava a achar que se completavam, um dando ao outro, aquilo que mais lhe faltava.  Biologicamente falando era quase uma simbiose.

O fato era que o Marcão... Epa, parecia que tinha passado por uma placa!  Voltou uns dois passos e viu, letrinhas brancas num fundo verde informando, salvadoras, que o banheiro ficava ali, bem pertinho, à sua direita.  Não pensou duas vezes.  Mandou todo o papo sobre simbiose para as cucuias e seguiu, ainda não totalmente aliviado, para o  seu porto seguro.  Entrou rápido e já ia colocando o pau para fora quando percebeu que todos os mictórios estavam ocupados. Respirou fundo e saiu à cata de um reservado vazio.  Merda!  O que estava acontecendo no Rio de Janeiro? Todos os homens sobre a terra cismaram de usar, ao mesmo tempo, a porra daquele banheiro?!  

Finalmente encontrou um que não estava ocupado e, não sem antes fechar a porta por trás de si, abriu o zíper, colocou o amigão para fora e verteu toda a loura que tinha bebido.  Ficou assim bem uns três minutos - tempo suficiente para pensar num monte de merda.  A primeira foi constatar que, se antes, o líquido que ingeria era alourado, espumante e gelado, agora ele saía tão louro quanto, fazendo a mesma espuma, mas, ao contrário do início do processo, quase fervia. Teve que rir dessa constatação idiota, daquelas que a gente só faz quando tem a cabeça vazia.  Foi quando, ainda soltando risadinhas, parou os olhos sobre alguns recadinhos deixados na parede do reservado.  Não eram um ou dois.  Era praticamente a parede inteira.  Todas elas. E a porta também.  Havia piadinhas infames, como um versinho que dizia “Estou sentado no vaso/ que sensação profunda/ a merda bate na água/ a água bate na bunda”, até recadinhos marcando encontros, com direito a medidas - “19 deliciosos motivos” - e até números de celular!  Um deles, porém, chamou-lhe a atenção, não sabia o porquê:  “Macho que curte macho na encolha.  Vem sentir o que é bom.  Te levo ao céu e te faço ver Deus.  Gostou?  Aqui, toda quarta, às 14.” Era gozado mas, de alguma forma, aquelas palavras lhe causaram impacto.  Talvez, pela maneira direta, ao contrário dos outros recados, cheios de mimimi e enrolação.  Esse não falava de medida, não deixava celular, mas ia direto ao ponto, falando que era macho que curtia macho, que levava ao céu e blábláblá.  Balançou a cabeça negativamente, coçou os olhos, leu tudo aquilo de novo e não acreditou no que estava fazendo.  Porra, tava perdendo o tempo lendo a droga de um recado daqueles?! O que a galera pensaria dele, se soubesse disso?  Pior, o que o Marcão pensaria?

Guardou o pau, deu descarga e foi direto ao lavatório, jogar um pouco de água fria no rosto. Precisava acordar daquele ataque súbito de boiolice.  Não, não era preconceituoso, mas pelo amor de Deus, era macho, hétero; sempre soube, sempre teve certeza absoluta disso.  Mas... O carinha lá do recado também era macho.  Que curtia outro macho.  

Como assim, macho que curtia outro macho?! Macho não curtia macho porra nenhuma. Macho curtia mulher, ponto.  Peito, bunda, xana.  Mulher.  Macho era o Marcão.  Safadão, comedor, pegou metade do Rio de Janeiro e ainda pegava, embora estivesse amarrado há quatro anos, pai de uma menina e de um moleque que chegava para o meio do ano, e, mesmo assim, duvidava que ainda não desse das suas escapulidas.  Aliás, duvidava uma pinóia, tinha certeza, certeza muito da absoluta.  Isso era, definitivamente, ser macho.  Macho como o Marcão.  E como ele - e à essa altura se olhou no espelho, para pensar algo do tipo “Bom, eu...

É.  Aí, já não tinha mais tanta certeza...

Não acreditou no que acabava de pensar a seu próprio respeito.  Caralho, o que era aquilo? Autossabotagem?  Ia embora dali antes que resolvesse sair do armário de uma vez.  Ou, nesse caso, sair do banheiro.  Mas antes, um lampejo de dúvida lhe ocorreu:  “Que dia era hoje?”. Olhou para o relógio. Wednesday.  Conferiu na parede do reservado.  Quarta. Quarta-feira. Era o dia. O dia do encontro.  Olhou o relógio:  13h40min. Vinte minutos.  Vinte minutinhos e o dono do recado deixado no reservado estaria ali.  Respirou fundo e, como se despertasse de um sono profundo, sentiu-se notado.  Era como se todos ali, dos caras que parassem para dar uma mijadinha até o faxineiro, estivessem olhando para ele  e lendo cada um dos seus pensamentos. Envergonhado, saiu depressa, antes que fosse linchado em praça pública.  Quase correu, mas viu que estava exagerando, assim que chegou no corredor.  Resolveu parar na praça de alimentação e pedir um cafezinho.  Tomou o café, pagou, riu de si mesmo pelo que havia ocorrido há pouco e tomou o rumo do estacionamento.  Às portas do elevador, porém, parou. Os pensamentos voltaram com força.  Estava curioso, não podia negar. Por que não ficava escondido, em outro reservado, esperando que o sujeito chegasse, sorrateiro? Ia ser divertido, vê-lo chegar e encontrar com outro, no horário marcado.  Ah, vamos lá, de perto ninguém é normal, já dizia o Caetano.  Que problema tinha em ser um pouco voyeur, pra variar?  Nenhum.  Não havia nada de anormal ou doentio, nem de boiolagem nisso.  E como a mente humana é uma merda, por alguns instantes imaginou a cena, o sujeito chegando, forte, másculo, parrudo e, logo em seguida, entrando, no mesmo reservado, outro cara, pálido, magrelo, trejeitos afeminados.  E ele, observando a cena, pelas frestas, fazendo justiça com as próprias mãos.  Não teve jeito.  Sentiu o “amigo de todas as horas” dando sinal de vida.  E experimentou sensação pior, dentro daquele elevador, do que a que experimentara, dentro do banheiro, minutos atrás.  Olhou para uma senhora de cabelos muito brancos, que sorriu-lhe terna.  Não podia continuar ali.  Meteu a mão no botão e saltou tão logo o elevador parou.  

Quando  deu por si, lá estava, dentro do reservado, lendo aquele mesmo recado pela décima-quinta vez.  Sim, décima-quinta vez!  Contou cada uma delas. Estava doido, transtornado, fora de si. Não faltava mais nada.  Literalmente.  Porque, àquela altura, já estava dando vazão aos pensamentos mais íntimos, aqueles que jamais pensava que tivesse, a vida toda.  E lá estava, olhos fechados, viajando neles quando sente a porta abrindo por trás de si.  Parou por uns instantes.   Gelou - da cabeça aos pés.  Ouviu o relógio pibando.  14 horas.  Duas da tarde.  Era ele. Fodeu.

O que fazia? Como se explicaria?  Pensou nos amigos do futebol de toda quarta à noite quando soubessem.  E o Marcão? Como explicaria para o melhor amigo, o brotherzão, ao irmão de alma, ao macho-alfa por excelência, uma coisa dessas?  Tava arrasado, destruído, a reputação mandada ralo abaixo.  Já estava encomendando a alma ao Senhor, como o condenado deve fazer segundos antes de subir à forca, quando ouviu a voz grossa, lhe soando familiar, lhe chamando o nome:

- Ricardo?

Abriu os olhos, espantado.  Não acreditava no  que ouvia.  Muito menos no que via.  Era ele, Marcão.  Putaquipariu, aquilo é que era azar!  Em todos os banheiros de todos os shoppings do Rio de Janeiro, ele tinha de escolher justamente aquele?  E logo aquele maldito reservado?!

Decerto Marcão pensaria algo parecido, mas as coisas pareceram tomar outro rumo quando ele olhou para baixo e viu, entre as mãos, com o quê o amigo estava se divertindo ali.  Ricardo ainda tentou explicar, mas Marcão se aproximava; não com cara de quem lhe quisesse meter umas porradas, mas de quem estava gostando do que via - e quisesse lhe meter outra coisa.

- Então quer dizer que você...?

- Eu o quê? - Ricardo tentava explicar, se embananando mais ainda.

- Sério, cara... Eu sempre soube que você curtia.  Eu só não esperava que...

- Pera, eu curto o quê, cacete?!

Foi quando a ficha caiu.  Numa fração de segundos, parou, olhou o amigo, olhou o recado na parede, voltou a olhar o amigo; o Marcão sorrindo, sorriso safado, balançando a cabeça positivamente como quem confirma toda a história, para depois se aproximar, cheio dos dedos, mil mãos em torno dele, voz de quem chama “vem cá, meu nego” na xinxa

  - Ei, o quê é isso, Marcão?

- Eu sempre tive tesão em você.  Sério, cara...

- Pera, Marcão, tu tá confundindo as coisas, mané...

- Por que você nunca sinalizou nada, porra?!

Ricardo tentou se explicar, mas ali, nem todas as palavras do mundo seriam capazes.  Tudo depunha contra ele.  Era tarde e Inês já era morta.  Estava fodido.  Literalmente.  Ou quase.
- Marc...

domingo, 27 de novembro de 2011

Amar Foi Minha Ruína

    Havia um roteiro - e ela sempre o seguia, ao pé da letra.  Era sempre a mesma história:  agora era diferente, este era O CARA, dessa vez, a coisa engatava e blábláblá.  E, acreditando piamente em cada uma destas palavras, mergulhava de cabeça.  Perdia a razão, a medida e entregava o coração, de bandeja.  E, por poucos dias, vivia a maior história de amor de todos os tempos.  Um verdadeiro idílio, daqueles para ninguém botar defeito.  Até que ela percebia o óbvio:  havia amor, entrega, dedicação e tudo o que se espera numa história dessas, mas...  De uma só parte.  Da dela.  Era ela quem amava, quem se entregava, quem corria atrás.  O outro só recebia.  E quando estava satisfeito, encerrava a história.  E partia para outra.  E ela continuava, determinada, na sua busca. 

    Decidiu descobrir onde errava, qual era o seu problema, sua doença, o diabo que fosse.  Conversou com amigos, buscou ajuda profissional, cogitou até mesmo procurar apoio espiritual.  O veredicto foi o mesmo:  ela amava.  Demais.


    Sofreu, mas sofreu calada, recolhida.  Tirou o time de campo, entrou em recesso, fechou pra balanço. Queria tão pouco, meu Deus!  Será que era pedir demais alguém que a amasse, que estivesse ao seu lado, para receber tudo aquilo que ela tinha para dar?

    Até que aconteceu.  Num dia qualquer, ele apareceu.  E veio cheio das “intensidades” para cima dela.  Falou que ela era a mulher ideal, que dessa vez sabia que valia a pena e blábláblá.  E, provando por a+b cada uma destas palavras, se jogou, sem medo de se afogar.  Sem cabeça, sem medida, coração servido em bandeja de prata. E ela recuou, assustada, amedrontada.  Mas como assim?  Havia horas que se conheciam!  Ficou confusa, assustada, quis correr.  E a razão, cadê?

    Fugiu para casa,  se trancou no quarto e se escondeu, debaixo das cobertas.  E começou a achar que, durante todo esse tempo, acreditou no diagnóstico errado.  Não, ela não sabia amar.



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os Irmãos Karamazov

Da esquerda para a direita, André, Patrícia, Léo (no colo) e eu, só sorrisos, UAHAHAHHA!  (Rita, devendo uma que tenha você)
   

   Bon Jovi diz, numa de suas músicas, que "nenhum homem é uma ilha".  Tá, é mentira.  Não foi o Jon (Bon Jovi) , e sim, o John (Donne), em sua clássica poesia que inspirou Hemingway a escrever "Por Quem Os Sinos Dobram".  Eu acho que não somos ilhas mesmo, mas somos, em nossa essência, solitários.  Nascemos sozinhos. E na hora em que Zé Maria surgir na nossa frente, com aquele sorriso sinistro, duvido que apareça alguém querendo ir conosco.  Triste, né?  Eu acho.  Seria tão mais bacana se pudéssemos nascer ou morrer em dupla, trio talvez.  Já pensou uma turma boa chegando lá do outro lado? Bora combinar, isso tornaria as coisas bem mais fáceis.

   Talvez, seja por isso que nunca me entrou na cabeça essa história de filho único.  Acho tão triste quando alguém diz, decidido, que pretende parar num filho só.  Só quem tem irmãos sabe o  quão chato - e maravilhoso - é tê-los.  

   Aqui em casa, somos cinco. Uma irmã mais velha, do primeiro casamento do meu pai, e três (mais eu, evidente), do casamento com minha mãe.  

   Nunca nos foi falado em casamento.  Falava-se em tudo.  Em estudar, aprender coisas novas, em ser o que te fizesse feliz, mas uma hora, não teve jeito.  Primeiro foi o meu irmão mais velho (minha irmã mais velha já é casada há dezoito anos).  Está casado, há oito, com uma de minhas melhores amigas, dos tempos de escola.  Senti falta, mas não foi nada demais.  A casa continuava cheia.   Aí, foi minha irmã.  Ela que viajou muito, que caía na esbórnia de segunda à sábado, que construiu uma carreira bacana , encontrou a cara metade e subiu ao altar.  Mas aí, tudo foi festa.  Ela aproveitou como poucos.  E a casa continuava cheia.  Até que chegou a vez dele.  Meu irmão caçula.  Ele que, noutro dia, era um moleque.  Que não me deixava ver TV querendo ver aqueles desenhos japoneses, que fazia o portão de casa de gol, que me pedia help quando ficava em prova final...  Ele vai casar e a casa vai ficar vazia.  Tá, vazia não.  Tem eu, né?  Mas...  quem vai dividir o quarto comigo (ah, isso nem é tão ruim, vai)?  Quem vai ficar acordado até tarde, falando sobre filmes e livros?  Quem vai me testar, quando uma música tocar no rádio e perguntar "Quem é que canta?"? Quem vai me irritar com seu jeito extremamente metódico e certinho? Quem é que vai chegar acendendo a luz do quarto sempre que estou assistindo um filme?  Quem vai negociar o preço da mensalidade da tv a cabo?

   De todos os meus irmãos, tenho lembranças do tipo - os filmes que assistimos juntos, as brincadeiras de infância, as surras de mamãe, os sermões do papai, as festas de Ano Novo aqui em casa...  coisas que são nossas, só nossas.

   É por essas e outras que eu acredito piamente que quem tem irmãos é menos só, nessa vida.  Irmão é uma extensão da gente.  É alguém para dividir a nossa alegria.  Alguém com quem dividir nossa dor.  Porque há dores que, por mais amigos que tenhamos, são nossas, só nossas. E de nossos irmãos - pra quem os possui.  Porque “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra (...)".

   Irmãos, eu amo vocês!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Ré Com Cré

"(...) o que é um "Árvore da Vida" pra quem  é amigo de Cintia?  Perto dela, todo o cinema cabeça do mundo é pintinho..."


Dia desses, eu comentava com um amigo sobre ela:  Cintia, filósofa de almanaque e psicóloga de calçada. A criatura  mais densa e profunda que conheço.  Um amor de pessoa, mas um poço de contradições, uma panelinha de pressão que, a qualquer momento - Pimba! -, pode ir pelos ares...  Junte Freud, Jung e Lacan que, nem fodendo, os três dão conta dela.  Se fosse uma música, Cintia seria a Nona Sinfonia de Beethoven, se fosse cinema, seria um filme do Bergão. Mas ela é uma (beleza) de mulher, é minha amiga, e vive dando nó na minha pobre cabecinha.

Eis que, no último domingo, fomos, ela e eu, conferir o filme mais comentado dos últimos tempos:  A Árvore da Vida, do diretor bissexto Terrence Malick.   Sensação em Cannes, o filme de Malick vem colecionando fãs ardorosos ou odiadores confessos, mundo afora.  Não é de se estranhar.  "A Árvore..." é mesmo um daqueles filmes do tipo ame ou odeie. 

A história seria até simples se o cara não resolvesse bancar o Kubrick e transformar a história de uma família americana da década de 1950 numa espécie de 2001, uma Odisséia no Espaço.  Entre os conflitos do pai com o filho; as lições do velho acerca da vida e o olhar amoroso da mãe sobre o mundo e as relações humanas, o diretor colocou o Big Bang, os dinossauros (!) e até uma espécie de Nosso Lar, com direito à confraternização de todas as personagens da historia, tal e qual vinheta de tv, de fim de ano.

Sei que tô pegando pesado e já tô esperando as pedras dos adoradores do filme, por isso, vou logo avisando:  eu gostei dele.  Juro.  Mas só. Não entrou pra minha lista de favoritos, tampouco enxerguei nele o discurso profundo que vem mudando a vida de todo mundo.  Aliás, é muito gozado espiar a reação das pessoas quando as luzes se acendem.  Tem desde o carinha que não entendeu bulhufas - eu (???) - até as mocinhas descoladas que tecem mil teorias pra justificar o samba-do-crioulo-doido do Malick. Porque foi isso que me pareceu.  Afinal, se ele tivesse enxugado uma hora de história e focasse mais na trama principal, talvez tivesse um filme menos bonito "plasticamente", mas, com certeza, bem mais agradável de se assistir.

Ah, e pra não dizer que o filme não me "falou" nada, deixa eu contar o insight que tive, enquanto os créditos finais subiam na tela.  Olhando pra cara da velha e boa amiga que, boquiaberta tentava entender o que tinha visto, tive uma revelação valiosa:  o que é um "Árvore da Vida" pra quem e é amigo de Cintia?  Perto dela, todo o cinema cabeça do mundo é pintinho...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Boa Estrela ou Me Espera, Meu Amor!


     Boa estrela - era isso o que a mãe de Everton dizia que ele tinha.  Talvez ela estivesse coberta de razão.  Porque só mesmo um cara com uma baita estrela pra ter dado a sorte que ele teve.  Cria de um dos bairros mais violentos de Sampa, desde cedo, era notório que o caminho do negrinho franzino que sempre levava a pior nas peladas de fim de tarde, seria totalmente diferente da maioria dos seus amigos.  E se não foi através do futebol, sonho de dez entre dez moleques da periferia, foi através, adivinhe do quê?  Da  música - e nem poderia  ser diferente!  Não sendo ele filho de quem era.  Seu Jair era uma daquelas figuras que todo mundo conhece, um daqueles tipos bonachões que  todos têm na família.  Alto, robusto, mulatão de imensos olhos verdes,  a dentadura muito  branca sempre escancarada... a simpatia em pessoa! Não era à toa que dona Sônia tinha ciúme mortal do marido.  Mas ele jurava de pés juntos que, no mundo inteiro, só uma mulher existia para ele, e, era com ela que tinha casado.  Ela fingia que acreditava,  né, mas no fundo, no fundo, continuava de orelha em pé.  E ela  lá podia dar mole? O homem era um boêmio, um  incorrigível, a sedução em pessoa.  Poeta nas horas vagas, sempre vivia por aí, nos bares, pedaço de papel na mão, rascunhando alguma poesia, tentando bolar alguma melodia pruma futura canção.  Sim, era um artista.  Não tivera sorte, fato.  Talvez fosse culpa da estrela dele - ah, sempre ela!  Mas também não se queixava, afinal, ali, no bairro, ele era um astro.  Isso ficou evidente depois que apareceu na TV, por duas vezes - uma no Show de Calouros, do Sílvio Santos, e outra, no  Cassino do Chacrinha.  E olha, essas aparições renderam, hein...  Se hoje, ele fosse apresentado a você que lê essas linhas, certamente o papo começaria com algo do tipo “Sabia que eu já estive na televisão?”, tomando conta de boa parte da conversa.  Aquele tipo de coisa que, embora tenha acontecido apenas duas, duas vezes, virou assunto pruma vida inteira.

     Mas voltemos ao Everton.   Dos sete filhos do casal, fora  justamente ele, o herdeiro dos dotes artísticos do pai.  Não tinha jeito, um era o outro; talvez, não cuspido e escarrado já que, fisicamente, o menino saíra todo à mãe.  Não tinha a pele amulatada nem os olhos verdes do genitor; era um daqueles negros retintos do tipo que, hoje, já não se vê mais.  Mas o temperamento, a queda pela poesia e pela música, o gosto pela vida boêmia, ah, tudo isso era gene do seu Jair.  E desde bem moleque, era o “chaveiro” do velho, a companhia nos bares e rodas de samba da vida.  É, roda   de samba sim, senhor, já que, há muito, Vinicius  foi contrariado.  Daí pra começar a meter bedelho nos versos do pai, foi um pulo.  E qual não foi a emoção do velho quando, pela primeira vez, viu o rebento entoar uma composição sua.  Talvez tenha sido o dia mais feliz da sua vida, mais do que quando fora no Chacrinha ou no Sílvio Santos.

     O tempo passou, Everton cresceu e encasquetou que queria ser artista.  Só que o buraco era mais embaixo e, por exigência da mãe, resolveu insistir nos estudos.  Já estava no terceiro período de Administração, mas achava que aquilo tudo era desperdício.  Pegava o diploma, entregava à coroa e ia continuar por aí, soltando sua voz.  Os finais de semana já eram dedicados ao showzinhos que dava com o grupo de pagode que montou com uns amigos de infância.  Eu que já estive em muitas dessas apresentações, posso afirmar:  o cara tinha talento.  E não era pouco, pelo contrário.  Mas sabe como é:  tudo pra pobre e mais difícil.  Evidente que, com ele, não era diferente.

     Mas a sorte parecia mudar e lá vinha a estrela do nosso herói brilhando outra vez.  Estava ele, numa dessas noitadas, conversando com duas belas morenas, depois do “show”, quando foi abordado por um cara que se identificou como produtor de TV. Reality Show.  Explicou a proposta.  Everton ficaria confiando por dois meses.  Ele e mais um grupo de doze pessoas. Tinha de tudo:  um ex-padre, uma halterofilista, um casal de lésbicas... Ele era o representante da periferia.   Quando ouviu isso, um “merda” lhe subiu à garganta e, por pouco, não esmurrou o dito cujo.  Resolveu virar as costas e deixar o sujeitinho falando sozinho.  Em vão.  O “produtor” não se fez de rogado e continuou no pé de Everton.  Venceu pelo cansaço.
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    Tá, ele não levou o reality, mas desconfiava que, entre todos os participantes, foi o que se deu melhor.  Aos 23 anos já tinha o futuro garantido.  Saiu do programa e foi logo posando pruma dessas revistas de gay, sabe, com o curioso slogan “Veja tudo o que o negão tem pra mostrar”.  Sucesso de vendas absoluto entre o público  gls, Everton usou o cachê pra  tirar os pais da comunidade.  Isso sem falar da puta projeção pro seu grupo, o “Só Delícia”.  Em tempo recorde, o rosto do menino que, não fazia muito, se dava mal na várzea, ficou conhecido em território nacional.  E a mulherada que antes não via grande coisa ali, agora se rasgava por ele.  Mas o coração dele tinha dona.  Carolaine era o seu nome.
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     Tinha 15 quando o conheceu.  Everton já tinha manjado a morena de olhão azul, na fila do gargarejo, cantando, de cor e salteado, as doze faixas do novo cd.  E não tirou os olhos dela, durante todo o show.  Carol - como preferia ser chamada - percebeu e não se fez de rogada.  Cantava cada vez mais alto, fechando os olhinhos, esbanjando charme como só as meninas de 15 sabem fazer.

     Quando acabou o show, ia com umas amigas pro ponto de ônibus, quando sentiu uma mão pesada no braço.  Virou-se.  Era um “armário”, de terno e óculos e escuros.  De início, ficou assustada, mas quando o segurança abriu a boca, entendeu tudo:

     - O grupo gostaria de ter a honra de receber a senhorita no camarim.

     Deu um sorriso sacana.  O grupo, né?  Tá bom.  O grupo...
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    A noite ainda não tinha terminado e os dois já estavam namorando.  Namoro à moda antiga, diga-se de passagem.  Daqueles que se pede permissão ao pai e tudo mais.  Também, tinha de ser assim.  Seu Nogueira, pai da moça, era terceiro sargento reformado da PM.  Naquela casa, tudo seguia o figurino.  À risca.  Mas  Everton era carismático.  Conquistou a sogra, de prima. O pai, demorou um pouco mais.  Três domingos, pra ser exato.  Mas depois que sentaram-se um dia, lado a lado, no sofá da sala, e o assunto passou a ser o desempenho do Coringão no Brasileirão, a coisa mudou de figura.  E Everton passou a ser não apenas namorado da Carolaine, mas também do velho e bom seu Nogueira...
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     Só estavam esperando o fim da faculdade da moça - Direito - pra trocarem alianças.  O empresário achava precipitado.  Everton ainda tava na flor da idade e era preciso não desperdiçar o carisma que ele tinha junto às garotas.  Mas ele não queria saber de carisma nenhum.  Ele queria era passar o resto da vida ao lado da sua Carolzinha, ficar velhinho como os seus pais estavam ficando, um ao lado do outro.

     Foi quando aconteceu.  Ela ligou, no meio de uma turnê, querendo saber quando ele voltava. Dali a dois dias, foi a resposta.  Ela tinha a voz trêmula, ele percebeu.  Quis  saber o que havia, ela respondeu dizendo que era algo que tinha de ser tratado pessoalmente.  Foram os dois dias mais longos de sua vida.  Imaginou mil coisas.  Mas tinha certeza, certeza absoluta do que ela queria falar-lhe.  Que sentia muito, que gostava muito dele, mas que não dava mais.  Tudo tinha terminado.

     Quando voltou pra Sampa, a primeira coisa que fez foi vê-la.  Ela estava visivelmente tensa, abatida.  Ele foi logo falando, dizendo o quanto a amava, que não podia viver sem ela.  Ela sorriu, o sorriso mais doce do mundo, e o beijou.  Falou que não era nada daquilo, que não queria deixá-lo.  Agora, mais do que nunca.  Porque carregava, na barriga, o filho deles.

     Everton deu um pulo pra trás.  Ficou alguns segundos parado, olhando pra namorada, tentando digerir a informação.  Ainda não havia conseguido.  Ela pegou-lhe as mãos e soltou um “o que houve, amor?”.  Ele não falou nada, abaixou o olhar e assim ficou, algum tempo, pra depois dizer:

     - Você vai tirar, não vai?

     Nunca mais se falaram.
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     A cabeça estava a mil. Se existia inferno, estava nele.  Deus do céu, por que fora tão ridículo?  Por que soltou tanta merda?  Queria fazer algo, queria procurá-la e falar que podia contar com ele, pro que desse e viesse, porque simplesmente a amava.  Mas não conseguia.  Jurava que não.

     Aquela noite, bebeu muito.  O apartamento estava cheio.  Dizem as más línguas que até orgia rolou.  Só sabe que acordou, pela manhã, com duas moças na cama, jurando que aquela tinha sido a melhor noite da vida delas.
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     Isso tudo foi parar no jornal, pra variar.  E se, antes, Everton não tinha certeza se existia inferno, agora tava ali, com o capeta bafejando no seu cangote.  Nem pintado a ouro, Carol e a família queriam vê-lo, pela frente.  Tentou por diversas vezes.  Queria gritar pro mundo que a amava, que queria tê-la ao lado, ela e o filho dos dois.  Mas não conseguia.  Não deixavam sequer se aproximar.  Aquela manhã, no entanto, estava disposto a mudar o rumo dessa história.  Saiu de casa resolvido.  Pegou o carro e tomou o rumo da sua felicidade.  Quase foi barrado na portaria, mas deu um safanão no porteiro, tirando o pobre da frente.  Tocou a campainha. O pai abriu, falando que ali não era benvindo.  Não se fez de rogado e forçou entrada.  Furou o bloqueio do velho e foi direto até ela que, chorava copiosamente, abraçada na mãe.  De joelhos, falou que a amava, a amava mais que tudo, mais que a própria vida, amor do tamanho do Universo.  E que queria casar com ela e cuidar daquela criança. Nem em sua melhor composição, tinha tanto lirismo.  E verdade.

     Foi quando o seu Nogueira soltou o verbo:

     - Não há filho nenhum, seu merda.  Graças a Deus, aliás.  Seria muita putaria ter um neto filho de um merda feito você.

     Foi uma porrada na cabeça. Mas... como não havia filho?  Em lágrimas, Carol explicou que fora alarme falso.  Mas agora não fazia diferença.  Porque, com filho ou sem filho, ela ainda o amava, e queria ficar com ele, custe o que custasse.  Que se danasse o mundo.  Era sua.  E ele era dela.

     Abraçaram-se e beijaram-se apaixonadamente.   Ele a chamou pra ir embora, queria viver com ela, tê-la como mulher. 

     - Agora?! - ela indagou, os olhinhos brilhando.

     Respondeu que sim.  Agora ou nunca. 

     Ela pediu cinco minutos pra pegar suas coisas.  E foi até o quarto.  Pronto.  O circo estava armado.  O pai pegou o 38, a mãe ameaçou trancar a filha em casa.  Com a arma na cabeça, Everton foi forçado a se retirar.  Carol, transtornada, pedia que ele a esperasse.  Não ficava ali mais um minuto.  Nem morta.

     Ele já ia saindo pela portaria, quando escutou o seu nome.  Parou, levantou o olhar.  Da janela, Carol, bolsa e jaqueta nas mãos, gritou, os cabelos negros ao vento, os olhos azuis mais azuis do que nunca:

     - Amor... Me espera!

     E jogou-se.  Do décimo-terceiro andar.

     Em dez segundos, a vida de Everton se transformou, de pagode em tango argentino.  No fim das contas, ele saiu ganhando.  Mudou o gênero, mas não perdeu as fãs,  carregando, a partir de então, a alcunha de "Eterno Viuvinho".

     Tinha ou não tinha uma boa estrela?

sábado, 9 de julho de 2011

Kit Anti-Homofobia

 

      Há alguns anos, assisti a um documentário americano sobre um estudo feito pela Universidade da Georgia, que afirmava que homofóbicos, de um modo geral, são gays enrustidos.  A experiência deles era curiosa:  64 jovens universitários, divididos em dois grupos, baseado num questionário respondido anteriormente, foram submetidos à exibição de vídeos homoeróticos.  Resumo da ópera:  os que tinham verdadeira ojeriza ao tema, foram, justamente, os que mais gostaram do que viram - se é que me entendem.

     Não sei o valor científico do experimento, mas dou o braço a torcer que sempre desconfiei disso.  É a velha história da “melhor defesa é o ataque”.  E isso me veio à cabeça, hoje, quando comentei no blog de um amigo, sobre o pronunciamento infeliz da atriz (?) e deputada estadual, Myrian Rios, se opondo à PEC 23/2007, misturando, num samba do crioulo doido, orientação sexual e pedofilia, como se o ato fosse algo exclusivo dos homossexuais.  Conforme escrevi, no blog desse amigo, não me conformo que pessoas esclarecidas e bem formadas, o que não me parece o caso dessa moça, disseminem ideias desse tipo.  O que piora se pensarmos que ela é uma representante do povo na Assembléia Legislativa e se declara como religiosa (com uma atitude que contraria, totalmente, a minha ideia de religião).

     É gozado - e impressionante - pensar que, em pleno século 21, o que rola entre quatro paredes ainda preocupe tanto as pessoas.  Eu mesmo custo a acreditar nisso, mas tão aí as Myrians e o Bolsonaros da vida que não me deixam mentir.  Pensando seriamente em mandar pros dois, de presente de Natal adiantado, um curta que vi, semana passada, chamado Não Gosto dos Meninos.  Inspirado num projeto da Pixar (ah, a Pixar!), André Matarazzo e Gustavo Ferri reuniram diferentes histórias que nos mostram que, no fundo, todo mundo é igual e todo mundo tem direito a ser feliz.  São só 18 minutinhos, mas põe muito filmaço por aí, no chinelo.

      Abaixo, os dois vídeos; o “It Gets Better”, da Pixar, e o brazuca,  “Não Gosto de Meninos”:








     Um verdadeiro Kit Anti-Homofobia.

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