O post abaixo é dedicado ao amigo
Danilo, autor e proprietário do blog
Ponto Três, que me cobrou um texto novo, no nosso bate-papo, na tarde de Natal. Taí, velhão, conforme prometido!
"Um deles, porém, chamou-lhe a atenção, não sabia o porquê: “Macho que curte macho na encolha. Vem sentir o que é bom. Te levo ao céu e te faço ver Deus. Gostou? Aqui, toda quarta, às 14.” (...)"
Chegou correndo, esbaforido. Havia mais de quinze minutos que a vontade de mijar era incontrolável. Sério, por pouco não parou o carro numa esquina qualquer, procurou um cantão e pôs o pinto para fora. A bexiga parecia que ia estourar, de tão cheia. Por isso, assim que chegou no shopping, pulou a parte de verificar se tudo estava na mais perfeita ordem - freio de mão puxado, carro milimetricamente alinhado à vaga, todas as portas trancadas e janelas levantadas -, tarefa com a qual costumava perder preciosos minutos, e seguiu, imediatamente, rumo ao banheiro mais próximo a fim de descarregar toda a cerveja que tinha tomado com o Marcão, durante o almoço. Tentou o elevador, disposto a chegar mais rápido ao destino. Ledo engano. Nos dois elevadores, as filas eram quilométricas - ousava dizer literalmente - de tão grandes que estavam. Não havia outra alternativa. Foi pelas escadas. Parecia um atleta; um destes maratonistas, tamanho o desespero que tomava conta do seu corpo, mais especificamente dos “países baixos” que, não demorava muito, era bem capaz de dar sinais de vida de tão estimulados que estavam.
Quando finalmente chegou ao piso das lojas, sentiu um alívio momentâneo, que foi por água abaixo ao notar que estava perdido. Não sabia qual direção seguir, qual corredor tomar. Pensou em abordar alguém e perguntar “Por favor, onde ficam os banheiros?”, mas cadê que a vergonha deixou? Decerto estava estampado na testa “Quero Mijar, Pelamor de Deus!”, por isso, decidiu provar a si mesmo que era maior que sua vontade, que quem mandava ali era a porra do seu cérebro e, por isso, respirou fundo e resolveu achar o seu “porto seguro” por conta própria. Placas, sempre havia algumas delas informando onde ficava isto ou aquilo. Era só andar mais uns metros e - bingo! - estaria diante de uma lhe indicando o que tanto procurava.
E, enquanto tratava de caminhar, catando as plaquinhas salvadoras, pensou que da próxima vez que saísse para almoçar com um amigo, maneiraria na gelada e só arredaria pé do restaurante depois de dar conta de todo líquido ingerido. Por sorte, no meio do caminho, havia aquele shopping, oásis no meio do deserto lhe convidando a saltar e verter toda a breja consumida. Caso contrário, o pit stop seria no primeiro poste que topasse, no melhor estilo “cachorro” de ser. Pensou nisso e riu, imaginando qual seria a reação do Marcão, quando contasse essa história. Certamente seria algo do tipo “Mas, caralho, qualé o problema em colocar a porra desse pau pra fora?” ou “Putaquipariu, virou moça, é? Cheia dos pudores...”. Definitivamente, esse era o Marco Aurélio. Ou Marcão, como geral o conhecia. Não esperaria algo diferente saindo daquela boca suja. Talvez fosse até melhor não contar-lhe nada, porque, para ele, o fato nada tinha de extraordinário. Meninos mijam na rua, desde que o mundo é mundo. Estão lá no futebol e, de repente, param e descarregam, ali mesmo, onde estão, sem cerimônia, como se fazer esse tipo de coisa em lugar público fosse a mais corriqueira do mundo. E talvez fosse mesmo, pelo menos, no universo masculino. Homens não têm pudores, nem diante das mulheres, imagine então entre si. Mijam uns na frente dos outros, peidam sem cerimônia, expõem tudo aquilo que o resto da humanidade insiste em vergonhosamente esconder. Nesse ponto, admitia, era diferente da maioria dos colegas de gênero. Pensou até que, talvez, nesse aspecto, fosse bem pouco masculino. Mas imediatamente tratou de afugentar esse pensamento porque associou, rapidamente, o fato de ser pouco menos masculino ao de ser pouco menos hétero - se isso fosse capaz. Não, não era isso, não mesmo. Era só mais educado - e ponto. Era criação. Coisa de família. Não conhecera o pai, convivera a vida toda com a mãe, as irmãs e a avó. E é claro que as mulheres peidam e mijam, mas de uma forma um tanto mais cerimoniosa. Lembrou-se de uma vez, quando alguém surgiu com a palavra “mijar” numa conversa doméstica e a mãe, aborrecida, foi logo soltando: “Eu não mijo, quem mija é a vaca. Eu urino.”. Pior foi quando, inconsciente, reproduziu o mesmo discurso, durante uma pelada no campinho do fim da rua, ainda moleque - “Pera, preciso fazer xixi!” - , sendo logo advertido por um coleguinha que disse que “Homem não faz xixi; homem mija, Ricardo!”.
O Marcão era um desses. Conheceram-se ainda na adolescência, no colégio. Com uns doze anos, já era o homenzarrão de hoje. Moreno, parrudo, ombros largos e mãos enormes, sempre chamou a atenção da mulherada. A primeira namorada foi uma menina de 17 anos, quatro, quatro anos mais velha - o que é muita coisa quando se tem 13 anos. Ele jura até hoje que foi ela a responsável de mandar-lhe a virgindade para o espaço. No fundo, no fundo, duvidava muito, mas para não perder o amigo, fingia que acreditava. Não que fosse algo impossível, o Marcão transando com uma menina mais velha. Muito pelo contrário. Mas algo, no seu íntimo lhe dizia que a primeira vez não havia sido com ela. Contudo, como já dissera, não queria perder-lhe a amizade, e não queria mesmo, porque o Marcão era, a despeito de todo aquele jeito grosseiro e estúpido, uma companhia maravilhosa, um amigo para todas as horas, daqueles que se pode contar para o que der e vier - e muitas provas teve disso, ao longo de mais de duas décadas de amizade. Amizade, aliás, para muitos, bem pouco provável, visto que eram donos de temperamentos opostos. Mas como se diz por aí que os opostos se atraem, a diferença deu samba e, desde que se conheceram, nunca mais se desgrudaram. Era uma dupla daquelas bem marcadas que ninguém consegue desassociar um do outro - O Gordo e o Magro, Batman e Robin, Pink e Cérebro, a corda e a caçamba -. Chegava a achar que se completavam, um dando ao outro, aquilo que mais lhe faltava. Biologicamente falando era quase uma simbiose.
O fato era que o Marcão... Epa, parecia que tinha passado por uma placa! Voltou uns dois passos e viu, letrinhas brancas num fundo verde informando, salvadoras, que o banheiro ficava ali, bem pertinho, à sua direita. Não pensou duas vezes. Mandou todo o papo sobre simbiose para as cucuias e seguiu, ainda não totalmente aliviado, para o seu porto seguro. Entrou rápido e já ia colocando o pau para fora quando percebeu que todos os mictórios estavam ocupados. Respirou fundo e saiu à cata de um reservado vazio. Merda! O que estava acontecendo no Rio de Janeiro? Todos os homens sobre a terra cismaram de usar, ao mesmo tempo, a porra daquele banheiro?!
Finalmente encontrou um que não estava ocupado e, não sem antes fechar a porta por trás de si, abriu o zíper, colocou o amigão para fora e verteu toda a loura que tinha bebido. Ficou assim bem uns três minutos - tempo suficiente para pensar num monte de merda. A primeira foi constatar que, se antes, o líquido que ingeria era alourado, espumante e gelado, agora ele saía tão louro quanto, fazendo a mesma espuma, mas, ao contrário do início do processo, quase fervia. Teve que rir dessa constatação idiota, daquelas que a gente só faz quando tem a cabeça vazia. Foi quando, ainda soltando risadinhas, parou os olhos sobre alguns recadinhos deixados na parede do reservado. Não eram um ou dois. Era praticamente a parede inteira. Todas elas. E a porta também. Havia piadinhas infames, como um versinho que dizia “Estou sentado no vaso/ que sensação profunda/ a merda bate na água/ a água bate na bunda”, até recadinhos marcando encontros, com direito a medidas - “19 deliciosos motivos” - e até números de celular! Um deles, porém, chamou-lhe a atenção, não sabia o porquê: “Macho que curte macho na encolha. Vem sentir o que é bom. Te levo ao céu e te faço ver Deus. Gostou? Aqui, toda quarta, às 14.” Era gozado mas, de alguma forma, aquelas palavras lhe causaram impacto. Talvez, pela maneira direta, ao contrário dos outros recados, cheios de mimimi e enrolação. Esse não falava de medida, não deixava celular, mas ia direto ao ponto, falando que era macho que curtia macho, que levava ao céu e blábláblá. Balançou a cabeça negativamente, coçou os olhos, leu tudo aquilo de novo e não acreditou no que estava fazendo. Porra, tava perdendo o tempo lendo a droga de um recado daqueles?! O que a galera pensaria dele, se soubesse disso? Pior, o que o Marcão pensaria?
Guardou o pau, deu descarga e foi direto ao lavatório, jogar um pouco de água fria no rosto. Precisava acordar daquele ataque súbito de boiolice. Não, não era preconceituoso, mas pelo amor de Deus, era macho, hétero; sempre soube, sempre teve certeza absoluta disso. Mas... O carinha lá do recado também era macho. Que curtia outro macho.
Como assim, macho que curtia outro macho?! Macho não curtia macho porra nenhuma. Macho curtia mulher, ponto. Peito, bunda, xana. Mulher. Macho era o Marcão. Safadão, comedor, pegou metade do Rio de Janeiro e ainda pegava, embora estivesse amarrado há quatro anos, pai de uma menina e de um moleque que chegava para o meio do ano, e, mesmo assim, duvidava que ainda não desse das suas escapulidas. Aliás, duvidava uma pinóia, tinha certeza, certeza muito da absoluta. Isso era, definitivamente, ser macho. Macho como o Marcão. E como ele - e à essa altura se olhou no espelho, para pensar algo do tipo “Bom, eu...”
É. Aí, já não tinha mais tanta certeza...
Não acreditou no que acabava de pensar a seu próprio respeito. Caralho, o que era aquilo? Autossabotagem? Ia embora dali antes que resolvesse sair do armário de uma vez. Ou, nesse caso, sair do banheiro. Mas antes, um lampejo de dúvida lhe ocorreu: “Que dia era hoje?”. Olhou para o relógio. Wednesday. Conferiu na parede do reservado. Quarta. Quarta-feira. Era o dia. O dia do encontro. Olhou o relógio: 13h40min. Vinte minutos. Vinte minutinhos e o dono do recado deixado no reservado estaria ali. Respirou fundo e, como se despertasse de um sono profundo, sentiu-se notado. Era como se todos ali, dos caras que parassem para dar uma mijadinha até o faxineiro, estivessem olhando para ele e lendo cada um dos seus pensamentos. Envergonhado, saiu depressa, antes que fosse linchado em praça pública. Quase correu, mas viu que estava exagerando, assim que chegou no corredor. Resolveu parar na praça de alimentação e pedir um cafezinho. Tomou o café, pagou, riu de si mesmo pelo que havia ocorrido há pouco e tomou o rumo do estacionamento. Às portas do elevador, porém, parou. Os pensamentos voltaram com força. Estava curioso, não podia negar. Por que não ficava escondido, em outro reservado, esperando que o sujeito chegasse, sorrateiro? Ia ser divertido, vê-lo chegar e encontrar com outro, no horário marcado. Ah, vamos lá, de perto ninguém é normal, já dizia o Caetano. Que problema tinha em ser um pouco voyeur, pra variar? Nenhum. Não havia nada de anormal ou doentio, nem de boiolagem nisso. E como a mente humana é uma merda, por alguns instantes imaginou a cena, o sujeito chegando, forte, másculo, parrudo e, logo em seguida, entrando, no mesmo reservado, outro cara, pálido, magrelo, trejeitos afeminados. E ele, observando a cena, pelas frestas, fazendo justiça com as próprias mãos. Não teve jeito. Sentiu o “amigo de todas as horas” dando sinal de vida. E experimentou sensação pior, dentro daquele elevador, do que a que experimentara, dentro do banheiro, minutos atrás. Olhou para uma senhora de cabelos muito brancos, que sorriu-lhe terna. Não podia continuar ali. Meteu a mão no botão e saltou tão logo o elevador parou.
Quando deu por si, lá estava, dentro do reservado, lendo aquele mesmo recado pela décima-quinta vez. Sim, décima-quinta vez! Contou cada uma delas. Estava doido, transtornado, fora de si. Não faltava mais nada. Literalmente. Porque, àquela altura, já estava dando vazão aos pensamentos mais íntimos, aqueles que jamais pensava que tivesse, a vida toda. E lá estava, olhos fechados, viajando neles quando sente a porta abrindo por trás de si. Parou por uns instantes. Gelou - da cabeça aos pés. Ouviu o relógio pibando. 14 horas. Duas da tarde. Era ele. Fodeu.
O que fazia? Como se explicaria? Pensou nos amigos do futebol de toda quarta à noite quando soubessem. E o Marcão? Como explicaria para o melhor amigo, o brotherzão, ao irmão de alma, ao macho-alfa por excelência, uma coisa dessas? Tava arrasado, destruído, a reputação mandada ralo abaixo. Já estava encomendando a alma ao Senhor, como o condenado deve fazer segundos antes de subir à forca, quando ouviu a voz grossa, lhe soando familiar, lhe chamando o nome:
- Ricardo?
Abriu os olhos, espantado. Não acreditava no que ouvia. Muito menos no que via. Era ele, Marcão. Putaquipariu, aquilo é que era azar! Em todos os banheiros de todos os shoppings do Rio de Janeiro, ele tinha de escolher justamente aquele? E logo aquele maldito reservado?!
Decerto Marcão pensaria algo parecido, mas as coisas pareceram tomar outro rumo quando ele olhou para baixo e viu, entre as mãos, com o quê o amigo estava se divertindo ali. Ricardo ainda tentou explicar, mas Marcão se aproximava; não com cara de quem lhe quisesse meter umas porradas, mas de quem estava gostando do que via - e quisesse lhe meter outra coisa.
- Então quer dizer que você...?
- Eu o quê? - Ricardo tentava explicar, se embananando mais ainda.
- Sério, cara... Eu sempre soube que você curtia. Eu só não esperava que...
- Pera, eu curto o quê, cacete?!
Foi quando a ficha caiu. Numa fração de segundos, parou, olhou o amigo, olhou o recado na parede, voltou a olhar o amigo; o Marcão sorrindo, sorriso safado, balançando a cabeça positivamente como quem confirma toda a história, para depois se aproximar, cheio dos dedos, mil mãos em torno dele, voz de quem chama “vem cá, meu nego” na xinxa.
- Ei, o quê é isso, Marcão?
- Eu sempre tive tesão em você. Sério, cara...
- Pera, Marcão, tu tá confundindo as coisas, mané...
- Por que você nunca sinalizou nada, porra?!
Ricardo tentou se explicar, mas ali, nem todas as palavras do mundo seriam capazes. Tudo depunha contra ele. Era tarde e Inês já era morta. Estava fodido. Literalmente. Ou quase.
- Marc...